Aula magna do PPGRI debate cultura e diplomacia como instrumentos de inserção internacional do Brasil

12 de março de 2026

O Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) realizou, na manhã desta quarta-feira (11), no Auditório Pioneiros, a aula magna que marcou a abertura do semestre letivo 2026.1. Com o tema “A cultura e a diplomacia como instrumentos de inserção internacional brasileira”, o Evento reuniu estudantes, docentes e pesquisadores para refletir sobre o papel estratégico da cultura na projeção do Brasil no cenário internacional.

A atividade contou com a participação do docente do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), professor Paulo Teixeira Iumatti, e do diplomata de carreira com ampla experiência internacional , o embaixador Carlos Alberto Asfora.
Durante a abertura do evento, a coordenadora do PPGRI, professora Giuliana Dias Vieira, destacou a relevância da temática para a formação dos estudantes e para o debate contemporâneo nas Relações Internacionais. Segundo ela, a cultura brasileira possui um potencial singular de projeção internacional. “A arte, a pintura, a música, o cinema, a literatura e a dança são manifestações que, além de nos inspirarem em sermos quem somos, projetam o Brasil de forma singular no mundo”, afirmou.

A professora ressaltou ainda que essas expressões culturais muitas vezes atuam de forma dispersa, o que levanta questionamentos sobre o grau de institucionalização de uma política cultural voltada para a diplomacia. “Cumpre indagar em que medida o Brasil tem buscado estruturar uma política cultural capaz de fortalecer uma diplomacia cultural mais efetiva”, pontuou, acrescentando que o programa busca trazer temas atuais como cultura e diplomacia para o centro dos debates acadêmicos.

Em sua participação, o embaixador Carlos Alberto Asfora apresentou reflexões baseadas em sua trajetória de cinco décadas no Ministério das Relações Exteriores. Ao longo da carreira, ele atuou em diferentes países e, em diversas ocasiões, esteve à frente do setor cultural de embaixadas brasileiras. Segundo o diplomata, a cultura é um instrumento poderoso de afirmação internacional, capaz de aproximar povos e fortalecer a imagem de um país no exterior. “A diplomacia cultural é uma forma de conquistar as pessoas pelo coração, não pelas armas. Muitas vezes, a cultura cria uma simpatia que desperta interesse em visitar o país ou consumir seus produtos”, explicou.

Apesar do potencial cultural brasileiro, o embaixador observou que o país historicamente aproveitou pouco esse recurso estratégico. “O Brasil sempre teve um grande soft power, mas nem sempre valorizou devidamente esse instrumento”, avaliou, citando exemplos de áreas que funcionam como portas de entrada para a imagem do país, como a música, o cinema e o futebol.

Já o professor Paulo Teixeira Iumatti abordou a relação entre ciência, diplomacia e representação nacional a partir de sua experiência como docente e pesquisador na França, onde atuou em dois períodos distintos. Para ele, trabalhar no exterior coloca o pesquisador diante de um impasse entre a perspectiva científica e o papel simbólico de representar seu país. “Quando você está fora do Brasil, inevitavelmente passa a representar o país, mesmo que essa não seja a sua intenção. Ao mesmo tempo, a ciência exige um olhar crítico e imparcial. Esse equilíbrio exige muito tato e reflexão”, afirmou.

O professor também destacou que, em sua experiência acadêmica na Europa, percebeu um contraste entre o peso cultural e econômico do Brasil e a pouca presença estratégica do Estado brasileiro na promoção da cultura no exterior. “Países menores, como Portugal, por exemplo, muitas vezes possuem uma presença institucional muito mais estruturada na divulgação cultural internacional”, observou.
De acordo com o docente, discutir essas questões com estudantes de Relações Internacionais e do Direito é fundamental para que futuros profissionais compreendam os desafios e as possibilidades da atuação brasileira no campo cultural. “É importante que eles tenham uma visão realista dos impasses da presença cultural do Brasil no exterior”, ressaltou.

A aula magna marcou o início das atividades acadêmicas do semestre 2026.1 do PPGRI e reafirmou o compromisso do programa com o debate qualificado sobre os instrumentos de inserção internacional do Brasil, especialmente aqueles que articulam cultura, identidade e política externa.

Texto e fotos: Juliana Marques