{"id":7911,"date":"2022-03-03T10:47:40","date_gmt":"2022-03-03T10:47:40","guid":{"rendered":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/?p=7911"},"modified":"2022-03-03T10:47:40","modified_gmt":"2022-03-03T10:47:40","slug":"pesquisadores-de-relacoes-internacionais-apresentam-um-panorama-do-conflito-entre-a-russia-e-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/pesquisadores-de-relacoes-internacionais-apresentam-um-panorama-do-conflito-entre-a-russia-e-ucrania\/","title":{"rendered":"Pesquisadores de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais apresentam um panorama do conflito entre a R\u00fassia e Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"<p>Disputas de poder e desdobramentos de quest\u00f5es hist\u00f3ricas que marcaram o mundo h\u00e1 d\u00e9cadas s\u00e3o algumas das nuances que comp\u00f5em o cen\u00e1rio complexo que desencadeou o conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, culminando na a\u00e7\u00e3o apontada como a maior opera\u00e7\u00e3o militar na Europa desde a segunda guerra mundial, com a invas\u00e3o do territ\u00f3rio ucraniano pelos militares russos em 24 de fevereiro. O cen\u00e1rio, que culminou em diversas san\u00e7\u00f5es financeiras e comerciais \u00e0 Russia, cr\u00edticas \u00e0 gest\u00e3o pol\u00edtica da crise por parte dos pa\u00edses envolvidos e repercuss\u00f5es humanit\u00e1rias e impactos econ\u00f4micos, \u00e9 caracterizado por uma guerra de narrativas que \u00e9 potencializada pela realidade de hiperinforma\u00e7\u00e3o que conta com o contributo das m\u00eddias sociais e tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o para se propagar.<\/p>\n<p>Diante disso, o docente da gradua\u00e7\u00e3o e do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Estadual da Para\u00edba (UEPB), Filipe Reis Melo, e o egresso da gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e doutorando em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), K\u00e9ssio Lemos, apresentam algumas informa\u00e7\u00f5es importantes para contextualizar a situa\u00e7\u00e3o vivenciada na Ucr\u00e2nia, que tem gerado a preocupa\u00e7\u00e3o mundial na atualidade. O professor Filipe Reis \u00e9 doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidad de Deusto (Espanha) e integra o quadro de pesquisadores do Centro de Estudos Avan\u00e7ados em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Governan\u00e7a (CEAPPG). J\u00e1 o doutorando Kessio Lemos \u00e9 pesquisador no Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Ambos t\u00eam se dedicado a acompanhar e entender esse conflito a partir das diversas facetas que o comp\u00f5em.<\/p>\n<p><strong>As origens do conflito<\/strong><\/p>\n<p>O pesquisador K\u00e9ssio Lemos enfatiza que entender a Hist\u00f3ria \u00e9 fator chave para a compreens\u00e3o dos eventos presentes. O professor Filipe Reis ressalta que este conflito n\u00e3o \u00e9 entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, mas sim, entre EUA e a R\u00fassia. A Ucr\u00e2nia \u00e9 o teatro das opera\u00e7\u00f5es.\u00a0 \u201cDe fato n\u00e3o se pode compreender o conflito sem o entendimento do contexto hist\u00f3rico. Com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e em 1991, a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) que reunia os EUA e os seus aliados ocidentais perdeu o sentido de existir, j\u00e1 que a OTAN havia sido criada em 1949, durante o per\u00edodo da Guerra Fria, para combater a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e seus aliados. Nas conversa\u00e7\u00f5es que ocorreram durante a d\u00e9cada de 1990 entre a R\u00fassia e os EUA, o acordo foi que a OTAN n\u00e3o seria ampliada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, para assim manter a estabilidade e a seguran\u00e7a regional. Um dos documentos que trazem essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo sobre a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, ocorrido em 1990, entre James Baker, o ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Estado dos EUA e Mikhail Gorbatchov, que foi o \u00faltimo presidente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Baker, afirma: \u201c[&#8230;] se os EUA mant\u00eam a sua presen\u00e7a na Alemanha no \u00e2mbito da OTAN, nem um cent\u00edmetro da atual jurisdi\u00e7\u00e3o militar da OTAN se espalhar\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o leste\u201d (<a href=\"https:\/\/nsarchive.gwu.edu\/document\/16117-document-06-record-conversation-between)\">https:\/\/nsarchive.gwu.edu\/document\/16117-document-06-record-conversation-between)<\/a>\u201d. O fato \u00e9 que os EUA n\u00e3o respeitaram esse acordo e avan\u00e7aram em dire\u00e7\u00e3o ao leste, aproximando-se da fronteira russa, incluindo novos membros da Europa Oriental\u201d, resume o professor Filipe.<\/p>\n<p>Segundo K\u00e9ssio Lemos o desmembramento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tornou independentes regi\u00f5es antes conectadas territorialmente, economicamente e culturalmente. Isso gerou consequ\u00eancias importantes. Por parte da R\u00fassia, as principais consequ\u00eancias foram a degrada\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia no mundo e uma grave crise financeira. \u201cAl\u00e9m disso, o distanciamento de algumas ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia e ades\u00e3o de algumas \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 OTAN (maior organiza\u00e7\u00e3o militar do mundo) despertaram a f\u00faria e temor dos l\u00edderes russos. Para eles, o territ\u00f3rio da R\u00fassia estava sendo cercado e o pa\u00eds precisava reagir. A Ucr\u00e2nia \u00e9 considerada uma das principais zonas de influ\u00eancia da R\u00fassia, seja por v\u00ednculos culturais hist\u00f3ricos ou por quest\u00f5es de ordem geopol\u00edticas, como proximidade territorial e a presen\u00e7a de uma importante rede de gasodutos russos que cruzam o territ\u00f3rio ucraniano. A partir do momento em que l\u00edderes anti R\u00fassia assumem o poder na Ucr\u00e2nia em 2014, os l\u00edderes russos passam a condenar a possibilidade de a Ucr\u00e2nia tamb\u00e9m entrar na OTAN e na UE, podendo permitir assim, que pot\u00eancias rivais passem a ter vantagens geopol\u00edticas contra a R\u00fassia\u201d, avalia.<\/p>\n<p>O professor Filipe Reis acrescenta que durante a d\u00e9cada de 1990, a R\u00fassia n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de se contrapor \u00e0 amea\u00e7a da OTAN, mas, atualmente se encontra numa posi\u00e7\u00e3o mais fortalecida e h\u00e1 meses tem avisado aos EUA que n\u00e3o aceitaria que a Ucr\u00e2nia se tornasse membro da OTAN. \u201cPara entender essa posi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, basta imaginar se os EUA aceitariam que a R\u00fassia instalasse m\u00edsseis na fronteira do M\u00e9xico com os EUA. Obviamente que n\u00e3o. M\u00edsseis hipers\u00f4nicos lan\u00e7ados do territ\u00f3rio ucraniano alcan\u00e7ariam Moscou em cinco minutos, tempo insuficiente para qualquer rea\u00e7\u00e3o defensiva. Tamb\u00e9m \u00e9 importante entender que as culturas russa e ucraniana est\u00e3o intimamente imbricadas. \u00c9 comum que fam\u00edlias russas tenham parentes ucranianos e vice-versa. A m\u00e3e de Gorbatchov, por exemplo, era ucraniana. Ucr\u00e2nia e R\u00fassia t\u00eam uma hist\u00f3ria de s\u00e9culos em comum. Para que o leitor tenha uma pequena ideia do isso significa, h\u00e1 um prov\u00e9rbio russo que diz \u2018Kiev \u00e9 a m\u00e3e de todas as cidades russas\u2019. Kiev \u00e9 a capital da Ucr\u00e2nia. Esta frase est\u00e1 no Conto dos Anos Passados, escrito por volta do ano 1.110. A Ucr\u00e2nia tem maioria de popula\u00e7\u00e3o de ascend\u00eancia russa no sul e no leste, na regi\u00e3o conhecida como Donbass. Foi em Donbass que, em 2014, surgiu um movimento de independ\u00eancia de Donetsk e Lugansk que contrap\u00f4s rebeldes dessa regi\u00e3o contra a for\u00e7a militar ucraniana\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>Interesses envolvidos<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com o professor Filipe Reis, em 2014 houve um golpe de Estado na Ucr\u00e2nia apoiado pelos EUA. A partir daquele ano, a situa\u00e7\u00e3o no leste da Ucr\u00e2nia se deteriorou com os combates entre rebeldes independentistas de Donetsk e Lugansk e for\u00e7as leais ao governo ucraniano. Mil\u00edcias neonazistas tamb\u00e9m estiveram implicadas nos ataques \u00e0s popula\u00e7\u00f5es das regi\u00f5es independentistas. Os pa\u00edses ocidentais deram apoio ao governo ucraniano e a R\u00fassia apoiou os independentistas. Para tentar resolver esse problema, surgiram os Acordos de Minsk (capital da Bielorr\u00fassia) que foram organizados pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o na Europa (OSCE), uma organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane 57 pa\u00edses, entre eles EUA, os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia e a R\u00fassia. Os Acordos de Minsk previam o cessar-fogo, negocia\u00e7\u00f5es para o estabelecimento de maior autonomia regional e a garantia da integridade do territ\u00f3rio ucraniano. O governo ucraniano foi o primeiro a n\u00e3o respeitar o cessar-fogo e de 2014 at\u00e9 hoje, cerca de 14 mil pessoas perderam a vida. Hoje h\u00e1 cerca de 120 mil refugiados ucranianos do Donbass que fugiram para a R\u00fassia e cerca de 100 mil, de outras regi\u00f5es da Ucr\u00e2nia, que foram para a Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA Ucr\u00e2nia \u00e9 o maior pa\u00eds da Europa Oriental, rico em min\u00e9rios e o nono maior produtor de ur\u00e2nio. Ocupa uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica ao norte do Mar Negro. H\u00e1 muitos interesses econ\u00f4micos em jogo. Do ponto de vista da pol\u00edtica externa dos EUA, a Ucr\u00e2nia \u00e9 uma pe\u00e7a fundamental para tentar enfraquecer a R\u00fassia, seu maior rival no \u00e2mbito militar. Documentos oficiais dos EUA, como o Indo-Pacific Strategy Report de 2019, mostram como os EUA est\u00e3o emprenhados em enfraquecer a R\u00fassia, chamada de \u201cator maligno\u201d. Do ponto de vista da seguran\u00e7a da R\u00fassia, a Ucr\u00e2nia significaria o que a Am\u00e9rica Central e o Caribe representam para os EUA, uma zona de influ\u00eancia priorit\u00e1ria ligada \u00e0 sua seguran\u00e7a nacional. O que vemos na Ucr\u00e2nia hoje, com a interven\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, \u00e9 resultado do embate entre a OTAN, liderada pelos EUA e a R\u00fassia que tenta conter a expans\u00e3o da OTAN embaixo de seu nariz. A exist\u00eancia de grupos neonazistas na Ucr\u00e2nia reconhecidos at\u00e9 mesmo pela insuspeita Freedom House (https:\/\/freedomhouse.org\/report\/special-report\/2020\/new-eurasian-far-right-rising) que atacam as regi\u00f5es de maioria russa e as rep\u00fablicas rebeldes de Donetsk e Lugansk s\u00e3o um ingrediente que tornam a situa\u00e7\u00e3o ainda mais complexa. O futuro dessas duas regi\u00f5es vai depender do embate entre R\u00fassia e os EUA para saber quem tem mais influ\u00eancia na regi\u00e3o. Isso fica claro quando se observa que, desde 2014, a m\u00eddia hegem\u00f4nica ocidental praticamente ignorou a viol\u00eancia das for\u00e7as militares ucranianas contra popula\u00e7\u00e3o civil das rep\u00fablicas rebeldes. \u00c9 dif\u00edcil encontrar nesses meios colunistas preocupados com a situa\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos naquela regi\u00e3o\u201d, pondera Filipe Reis.<\/p>\n<p>Por outro lado, conforme avalia K\u00e9ssio Lemos, a R\u00fassia quer recuperar o protagonismo e influ\u00eancia no seu entorno geogr\u00e1fico. Mais do que isso, estabelecer uma zona de seguran\u00e7a entre o territ\u00f3rio russo e a bases militares da OTAN. Para isso, o objetivo \u00e9 destituir o atual governo ucraniano e ter influ\u00eancia e\/ou controle sobre as principais decis\u00f5es de pol\u00edticas do pa\u00eds. A invas\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um recado dado por Vladimir Putin de que a R\u00fassia deve ser tratada como uma grande pot\u00eancia, e que o pa\u00eds n\u00e3o vai permitir o que ele chama de \u201cinterven\u00e7\u00e3o ocidental\u201d no limiar de suas fronteiras.<\/p>\n<p>\u201cA Ucr\u00e2nia est\u00e1 dividida como pa\u00eds. Parte de sua popula\u00e7\u00e3o se identifica e deseja que o pa\u00eds esteja alinhado com a R\u00fassia. Outra parte quer autonomia e inser\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ao modelo pol\u00edtico-econ\u00f4mico do Ocidente. Em rela\u00e7\u00e3o ao governo, o discurso \u00e9 baseado na busca por autonomia. O pa\u00eds quer tomar suas decis\u00f5es sem interfer\u00eancia estrangeira. O atual governo v\u00ea como um objetivo a entrada do pa\u00eds na OTAN e Uni\u00e3o Europeia. A associa\u00e7\u00e3o de outras ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas nessas institui\u00e7\u00f5es, segundo os l\u00edderes ucranianos, trouxe benef\u00edcios econ\u00f4micos para estes pa\u00edses, e a Ucr\u00e2nia deve seguir esse modelo. Os EUA e os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia querem uma Ucr\u00e2nia \u201cindependente\u201d, o que na pr\u00e1tica representa a manuten\u00e7\u00e3o do atual governo que \u00e9 um aliado importante do Ocidente. Oficialmente estes pa\u00edses n\u00e3o defendem a entrada ucraniana na OTAN e UE. No entanto, afirmam que a Ucr\u00e2nia deve ser livre para escolher e lutar por suas aspira\u00e7\u00f5es e pretens\u00f5es de pol\u00edtica externa. No entanto, ao que parece, o maior objetivo em quest\u00e3o \u00e9 de conter o aumento de influ\u00eancia da R\u00fassia e a expans\u00e3o de seu territ\u00f3rio, e tamb\u00e9m evitar que este evento gere uma cadeia de outros eventos que venham a desestabilizar o sistema internacional como um todo\u201d, explica K\u00e9ssio Lemos.<\/p>\n<p><strong>Estamos rumo a uma terceira guerra mundial?<\/strong><\/p>\n<p>Na an\u00e1lise dos pesquisadores da UEPB, em situa\u00e7\u00f5es desse tipo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter certeza de nada, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que os EUA e nenhum pa\u00eds ocidental queira se envolver em combates diretos contra a R\u00fassia. Primeiro porque a Ucr\u00e2nia n\u00e3o faz parte da OTAN e, por isso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acionar o seu artigo 5\u00ba que prev\u00ea uma resposta da OTAN contra qualquer membro da organiza\u00e7\u00e3o que for agredido. Segundo porque o Ocidente n\u00e3o parece disposto a se arriscar numa guerra que n\u00e3o \u00e9 sua. Os ucranianos est\u00e3o sendo utilizados pela OTAN, leia-se EUA, para amea\u00e7ar a R\u00fassia. Se a empreitada n\u00e3o der certo, os ucranianos ser\u00e3o abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Terceiro, porque de acordo com especialistas em armamento, a R\u00fassia ocupa hoje a posi\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada no mundo no que diz respeito a armas hipers\u00f4nicas. Seria uma aposta muito arriscada do Ocidente. Finalmente, e talvez este seja o motivo mais relevante, \u00e9 que a Ucr\u00e2nia representa um espa\u00e7o fundamental para a R\u00fassia, mas n\u00e3o \u00e9 fundamental para o Ocidente. Ou seja, a Ucr\u00e2nia n\u00e3o ingressar na OTAN n\u00e3o representa nenhuma perda para o Ocidente, mas a entrada da Ucr\u00e2nia na OTAN representaria um dano gigantesco para a R\u00fassia. Portanto, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que os desdobramentos ocorram nas esferas econ\u00f4micas, pol\u00edticas e diplom\u00e1ticas, com o azedamento das rela\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e os pa\u00edses ocidentais que v\u00e3o impor san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>A desinforma\u00e7\u00e3o como recurso estrat\u00e9gico<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores da UEPB asseguram que h\u00e1 uma guerra de ret\u00f3ricas, informa\u00e7\u00e3o ou de contrainforma\u00e7\u00e3o, que ocorre antes, durante e depois da guerra militar. \u201cVerdades\u201d constru\u00eddas e argumentos consolidados que podem transformar mocinhos em vil\u00f5es e vice-versa. O alcance ilimitado e as novas e poderosas ferramentas de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o usadas habilmente para fins pol\u00edticos e militares espec\u00edficos.<\/p>\n<p>\u201cIsso sempre existiu. A diferen\u00e7a de hoje com rela\u00e7\u00e3o ao passado \u00e9 que com o advento da Internet e o desenvolvimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e das redes sociais, essa guerra informacional se intensificou. O caso paradigm\u00e1tico de manipula\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es internacionais foi quando, em 2003, Colin Powell que era o Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, foi ao Conselho de Seguran\u00e7a da ONU afirmar que o Iraque possu\u00eda armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa e assim, justificar a invas\u00e3o do Iraque. Segurando um frasco de vidro com p\u00f3 branco dentro, mostrava que aquilo era uma amostra do que o Iraque possu\u00eda. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais na \u00e9poca divulgaram aquela informa\u00e7\u00e3o como se fosse ver\u00eddica. Qualquer pessoa que n\u00e3o tenha consci\u00eancia de que h\u00e1 uma guerra de narrativas, pode facilmente ser manipulada pelas informa\u00e7\u00f5es a que tem acesso. Hoje j\u00e1 se sabe que as m\u00eddias sociais, atrav\u00e9s da programa\u00e7\u00e3o dos algoritmos, priorizam a divulga\u00e7\u00e3o de determinados conte\u00fados em preju\u00edzo de outros. Empresas como Google (que \u00e9 dona do YouTube), Facebook e Twitter n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os neutros de divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. Por outro lado, n\u00e3o existe neutralidade na pol\u00edtica e por isso, os grandes meios de informa\u00e7\u00e3o possuem uma narrativa determinada sobre esse tema. Por exemplo, se buscamos entender o que ocorre na Ucr\u00e2nia recorrendo \u00e0 BBC, CNN, Le Monde, El Pa\u00eds ou aos ve\u00edculos da grande m\u00eddia brasileira, como o G1 e Folha de S\u00e3o Paulo, a narrativa \u00e9 sempre a mesma, bem alinhada com a posi\u00e7\u00e3o oficial dos EUA. Se queremos ampliar a nossa vis\u00e3o e ter acesso a outras narrativas, \u00e9 necess\u00e1rio contrastar as informa\u00e7\u00f5es desses meios ocidentais com as da m\u00eddia russa (RT ou TASS), da m\u00eddia chinesa (CGTN), da m\u00eddia iraniana (HispanTV), ou mesmo latino-americana (TeleSur). H\u00e1 v\u00e1rios blogs e portais de an\u00e1lise de pol\u00edtica internacional que oferecem diferentes lentes de an\u00e1lise do que ocorre no mundo\u201d, elucida Filipe.<\/p>\n<p><strong>Repercuss\u00f5es financeiras, pol\u00edticas e comerciais<\/strong><\/p>\n<p>O professor Filipe Reis analisa com cautela o atual cen\u00e1rio no que concerne \u00e0s consequ\u00eancias desse evento. \u201cPodemos dizer que esse conflito reacende o embate entre os EUA e a R\u00fassia que marcou o per\u00edodo da Guerra Fria (1945-1991). Outro indicador deste evento \u00e9 a perda relativa de poder dos EUA no mundo, pois desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991, at\u00e9 2021, a \u00fanica superpot\u00eancia que invadiu e que bombardeou outros pa\u00edses foram os EUA (Som\u00e1lia \u2013 1993, Iugosl\u00e1via \u2013 1999, Afeganist\u00e3o \u2013 2011, Iraque \u2013 2003, L\u00edbia \u2013 2011, S\u00edria \u2013 2014), o que era um indicador da unipolaridade daquele per\u00edodo. Com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, os EUA j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o sozinhos nesse quesito. Pode ser que os historiadores, daqui a alguns anos, considerem a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia tenha sido o marco de uma nova ordem mundial multipolar\u201d, explica.<\/p>\n<p>K\u00e9ssio Lemos opina que os \u00faltimos acontecimentos podem tra\u00e7ar uma nova ordem internacional. \u201cA ONU tem se mobilizado. A Uni\u00e3o Europeia tem se unido novamente. Pa\u00edses que em outrora eram neutros &#8211; como su\u00ed\u00e7a, Finl\u00e2ndia e, em alguma medida, Alemanha, agora est\u00e3o se posicionando claramente contra a R\u00fassia. A expans\u00e3o da OTAN agora \u00e9 uma realidade. Or\u00e7amentos de defesa j\u00e1 est\u00e3o em amplia\u00e7\u00e3o. Ficou claro para os vizinhos da R\u00fassia que se filiar a OTAN \u00e9 a \u00fanica forma de se proteger contra a ambi\u00e7\u00e3o russa. Al\u00e9m disso, a Europa agora est\u00e1 comprometida em acelerar seu projeto de independ\u00eancia energ\u00e9tica da R\u00fassia. Tudo isso trar\u00e1 enormes consequ\u00eancias para a distribui\u00e7\u00e3o de poder internacional\u201d, considera.<\/p>\n<p>Para o professor Filipe Reis no Brasil as principais consequ\u00eancias podem ser o aumento da infla\u00e7\u00e3o por dois motivos: aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e aumento do pre\u00e7o de fertilizantes. No caso do petr\u00f3leo, a R\u00fassia \u00e9 o segundo maior produtor do mundo, atr\u00e1s apenas dos EUA. Se a sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzida, a tend\u00eancia \u00e9 o aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo. \u201cMas como isso interfere no Brasil? Ora, o governo Bolsonaro determinou que a Petrobras siga a pol\u00edtica de pre\u00e7os de paridade de importa\u00e7\u00e3o (PPI), que significa que o pre\u00e7o do petr\u00f3leo brasileiro acompanha o pre\u00e7o do petr\u00f3leo internacional. Por isso, o pre\u00e7o da gasolina, do diesel e do g\u00e1s de cozinha no Brasil tem subido tanto. No que se refere aos fertilizantes, o Brasil \u00e9 terceiro maior produtor agr\u00edcola do mundo, atr\u00e1s dos EUA e da China. O Brasil importa 80% dos fertilizantes que utiliza e a R\u00fassia \u00e9 o maior exportador de nutrientes derivados de nitrog\u00eanio. Se as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia forem implementadas, o Brasil n\u00e3o poder\u00e1 mais adquirir da R\u00fassia e ter\u00e1 que buscar outro fornecedor que lhe vender\u00e1 a pre\u00e7os mais caros. Portanto, haver\u00e1 aumento dos custos na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Brasil, o que significa que as ra\u00e7\u00f5es animais ficar\u00e3o mais caras. Com ra\u00e7\u00e3o mais cara, produtores de carne bovina, de frango e de ovos aumentar\u00e3o seus pre\u00e7os. Os exportadores de soja, de carne bovina e de frango tamb\u00e9m podem ser prejudicados com as san\u00e7\u00f5es, pois n\u00e3o poder\u00e3o mais exportar para a R\u00fassia. O com\u00e9rcio do Brasil com a Ucr\u00e2nia \u00e9 pouco significativo para a economia brasileira. Trigo e aveia, cereais importados pelo Brasil, tamb\u00e9m devem subir de pre\u00e7o. Resumindo, tendo em conta a situa\u00e7\u00e3o financeira dif\u00edcil da maioria dos trabalhadores, as consequ\u00eancias para a popula\u00e7\u00e3o brasileira s\u00e3o bastantes negativas\u201d, prev\u00ea.<\/p>\n<p><strong>O futuro do conflito<\/strong><\/p>\n<p>Ao refletir sobre os caminhos para a solu\u00e7\u00e3o deste conflito o pesquisador K\u00e9ssio Lemos se mostra c\u00e9tico quanto ao fato de um poss\u00edvel recuo da R\u00fassia. \u201cEla concentrar\u00e1 seus ataques a Kiev at\u00e9 deter o controle da capital e destituir o atual governo. Ap\u00f3s isso ela poder\u00e1 sentar na mesa para negociar, j\u00e1 que estar\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. Em contrapartida a resist\u00eancia ucraniana est\u00e1 se mostrando mais forte que o esperado. Come\u00e7ar\u00e1 tamb\u00e9m a receber armas e apoio financeiro do Ocidente.\u00a0 Isso pode gerar rea\u00e7\u00f5es cada vez mais fortes da R\u00fassia e consequentemente tornar as rela\u00e7\u00f5es com o Ocidente cada vez mais litigiosas. N\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio f\u00e1cil\u201d, sup\u00f5e.<\/p>\n<p>O professor Filipe Reis tamb\u00e9m segue na mesma linha de racioc\u00ednio. \u201cEu s\u00f3 vislumbro uma alternativa: desocupa\u00e7\u00e3o imediata da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia; comprometimento da OTAN de n\u00e3o incluir a Ucr\u00e2nia na organiza\u00e7\u00e3o; e envio de for\u00e7as da ONU ou da OSCE para a regi\u00e3o de Donbass, para garantir o cessar-fogo e evitar a viol\u00eancia contra aquela popula\u00e7\u00e3o de cerca de 3,5 milh\u00f5es de pessoas, principalmente a viol\u00eancia de mil\u00edcias neonazistas ucranianas. No entanto, infelizmente, vejo com muita retic\u00eancia a possibilidade de que as partes envolvidas aceitem uma solu\u00e7\u00e3o desse tipo. O mais prov\u00e1vel, \u00e9 que a solu\u00e7\u00e3o seja imposta pelo lado que tiver mais for\u00e7a e for capaz de sobrepor sua vontade sobre a dos demais, ap\u00f3s muito sofrimento da popula\u00e7\u00e3o civil ucraniana\u201d, conclui.<\/p>\n<p><strong><em>Entrevista concedida \u00e0 Juliana Marques<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disputas de poder e desdobramentos de quest\u00f5es hist\u00f3ricas que marcaram o mundo h\u00e1 d\u00e9cadas s\u00e3o algumas das nuances que comp\u00f5em o cen\u00e1rio complexo que desencadeou o conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, culminando na a\u00e7\u00e3o apontada como a maior opera\u00e7\u00e3o militar na Europa desde a segunda guerra mundial, com a invas\u00e3o do territ\u00f3rio ucraniano pelos militares <a class=\"leiamais\" href=\"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/pesquisadores-de-relacoes-internacionais-apresentam-um-panorama-do-conflito-entre-a-russia-e-ucrania\/\">Leia Mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,13],"tags":[],"class_list":["post-7911","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","category-noticias-destaque"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7911"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7911\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}