{"id":6867,"date":"2020-04-17T14:34:48","date_gmt":"2020-04-17T14:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/?p=6867"},"modified":"2020-04-17T14:34:48","modified_gmt":"2020-04-17T14:34:48","slug":"pesquisadores-do-campus-v-da-universidade-estadual-da-paraiba-esclarecem-sobre-o-novo-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/pesquisadores-do-campus-v-da-universidade-estadual-da-paraiba-esclarecem-sobre-o-novo-coronavirus\/","title":{"rendered":"Pesquisadores do C\u00e2mpus V da Universidade Estadual da Para\u00edba esclarecem sobre o novo coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s o surgimento da Covid-19, doen\u00e7a provocada por um novo tipo de coronav\u00edrus, que chegou ao Brasil trazendo bastante preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades de Sa\u00fade, a sociedade tem vivenciado um per\u00edodo de incertezas e prolifera\u00e7\u00e3o de fake news. Diante disso, para esclarecer as principais d\u00favidas sobre a doen\u00e7a, os pesquisadores da Universidade Estadual da Para\u00edba (UEPB), Daniela Santos Pontes e Francisco Jaime Mendon\u00e7a J\u00fanior, que t\u00eam acompanhado os principais encaminhamentos e pesquisas relacionadas \u00e0 doen\u00e7a, falaram a respeito do problema e esclareceram algumas d\u00favidas, nesta entrevista que pode ser conferida a seguir.<\/p>\n<p>P\u00f3s-doutora pelo<em> Institut National de la Recherche Agronomique <\/em>(INRA), na Fran\u00e7a, doutora e mestre em Gen\u00e9tica Molecular e de Micro-organismos, a professora Daniela Santos Pontes atua leciona no Centro de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas e Sociais Aplicadas (CCBSA) da UEPB. A pesquisadora j\u00e1 atuou no Centro de Pesquisa Renn\u00e9 Rachou, da Fiocruz, em Belo Horizonte, e possui experi\u00eancia na \u00e1rea de Gen\u00e9tica e Biologia Molecular de Micro-organismos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o professor Francisco Jaime Mendon\u00e7a J\u00fanior \u00e9 doutor em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas na \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o \u201cFarmacologia, Fisiologia e Qu\u00edmica Medicinal\u201d, \u00e9 inventor com 19 pedidos de patentes depositadas\/concedidas no INPI (BR) e duas patentes internacionais no PCT. Integra diversos projetos aprovados em \u00f3rg\u00e3os de fomento. O pesquisador atua como docente do CCBSA e desenvolve pesquisas na \u00e1rea da Qu\u00edmica Org\u00e2nica Medicinal, com \u00eanfase na s\u00edntese e planejamento de novos f\u00e1rmacos e mol\u00e9culas bioativas para tratamento de patologias cr\u00f4nico-degenerativas, tais como c\u00e2ncer, inflama\u00e7\u00e3o e dor, bem como doen\u00e7as infecciosas e negligenciadas.<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma das<em> fake news<\/em> relacionadas ao novo coronav\u00edrus \u00e9 a de que ele foi criado em laborat\u00f3rio, o que foi refutado em uma publica\u00e7\u00e3o da revista Nature Medicine, na qual pesquisadores dos Estados Unidos, Esc\u00f3cia e Austr\u00e1lia apontam evid\u00eancias de que o SARS-CoV-2 (nome cient\u00edfico do v\u00edrus) surgiu a partir dos processos naturais de evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos. Voc\u00eas corroboram com esse pensamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela Pontes:<\/strong> Eu venho acompanhando as pesquisas cient\u00edficas publicadas sobre o SARS-CoV-2, baseado nos aspectos cient\u00edficos que v\u00eam sendo analisados e as evid\u00eancias realmente apontam para um processo de evolu\u00e7\u00e3o natural do v\u00edrus. Essas an\u00e1lises foram feitas e v\u00eam sendo realizadas com base nos genomas sequenciados do SARS-CoV-2 isolados de indiv\u00edduos em diferentes pa\u00edses do mundo e em compara\u00e7\u00e3o a outros v\u00edrus da fam\u00edlia Coronaviridae, incluindo o SARS-CoV (que causou um surto de s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda grave em humanos, em 2002) e o MERS (que causou a s\u00edndrome respirat\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio, em 2012). Esses dois v\u00edrus apresentavam origem zoon\u00f3tica e desencadearam doen\u00e7as respirat\u00f3rias explosivas em humanos. Os v\u00edrus originais SARS-CoV e MERS teriam como reservat\u00f3rios naturais os morcegos e, no entanto, a transmiss\u00e3o para humanos teria sido realizada por hospedeiros intermedi\u00e1rios como gatos almiscarados e camelos. Inicialmente, \u00e9 importante lembrar que os v\u00edrus n\u00e3o se reproduzem por conta pr\u00f3pria e, assim, ele necessita de estar em uma c\u00e9lula de um organismo vivo para que ele possa se replicar. Eles tamb\u00e9m evoluem, como todos os outros seres vivos. Ou seja, eles podem mudar geneticamente ao longo do tempo. As muta\u00e7\u00f5es podem causar substitui\u00e7\u00f5es de amino\u00e1cidos nas prote\u00ednas produzidas pelo v\u00edrus. As muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o a principal fonte de variabilidade gen\u00e9tica e esse \u00e9 um processo que simplesmente acontece. Esse processo de mudan\u00e7as gen\u00e9ticas, a a\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o natural e a deriva gen\u00e9tica ao longo do tempo levam a evolu\u00e7\u00e3o. Dessa forma, pensando em processo evolutivo para o v\u00edrus, que depende do hospedeiro para sobreviver e se replicar, a adapta\u00e7\u00e3o de forma a coexistir com o hospedeiro \u00e9 uma forma de adapta\u00e7\u00e3o evolutiva. Se a letalidade do v\u00edrus \u00e9 muito alta, a morte do hospedeiro n\u00e3o \u00e9 interessante para sobreviv\u00eancia do v\u00edrus, uma vez que se o hospedeiro morrer, o v\u00edrus morre tamb\u00e9m. Quando um v\u00edrus novo surge por um processo evolutivo natural e seu hospedeiro n\u00e3o apresenta algum tipo de resist\u00eancia a ele (imunidade), eles tornam-se emergentes e podem causar infec\u00e7\u00f5es agudas, caracterizadas por uma r\u00e1pida dissemina\u00e7\u00e3o, podendo levar a consequ\u00eancias mais graves. Isso \u00e9 o que acreditamos que esteja acontecendo em rela\u00e7\u00e3o ao surgimento do SARS-CoV-2. Pela semelhan\u00e7a do novo coronav\u00edrus com os v\u00edrus SARS-CoV e MERS, acredita-se que ele tenha origem zoon\u00f3tica. O v\u00edrus SARS-CoV-2 apresenta alta similaridade com o genoma de um v\u00edrus isolado de morcego (BatCoV RaTG13) que, entre os coronav\u00edrus conhecidos, apresenta-se como o parente mais pr\u00f3ximo do novo SARS-CoV-2. At\u00e9 o momento, n\u00e3o se sabe se o BatCoV RaTG13 pode ser transmitido para humanos. Acredita que esses dois v\u00edrus compartilhem um mesmo ancestral comum, atrav\u00e9s das an\u00e1lises filogen\u00e9ticas que v\u00eam sendo realizadas, comparando esses v\u00edrus e outros tipos de coronav\u00edrus j\u00e1 sequenciados como os encontrados em morcegos e pangolins da Mal\u00e1sia. Al\u00e9m disso, o animal hospedeiro do SARS-CoV-2, que provavelmente serviu como reservat\u00f3rio para a transmiss\u00e3o do v\u00edrus ao homem, ainda permanece incerto. Contudo, nenhum v\u00edrus animal altamente similar ao SARS-CoV-2, que pudesse ser seu progenitor direto, foi identificado at\u00e9 o momento. O que foi levantado pelo grupo acima citado \u00e9 que, na an\u00e1lise comparativa dos genomas, esses pesquisadores conclu\u00edram que o SARS-CoV-2 surgiu atrav\u00e9s de um processo evolutivo natural. Eles focaram as an\u00e1lises na prote\u00edna Spike (S) que se encontra na superf\u00edcie do v\u00edrus e \u00e9 envolvida no processo de infec\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas. Nessa prote\u00edna encontra-se uma regi\u00e3o denominada dom\u00ednio de liga\u00e7\u00e3o ao receptor (RBD) e que tem alta afinidade ao receptor da enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2) de humanos, fur\u00f5es, gatos, entre outros mam\u00edferos e tamb\u00e9m a regi\u00e3o do dom\u00ednio polib\u00e1sico de clivagem pela furina. Os pesquisadores apontam que o dom\u00ednio RBD evoluiu otimizando a sua liga\u00e7\u00e3o ao receptor ACE2 e melhorando a infec\u00e7\u00e3o celular do v\u00edrus de uma forma eficiente e diferente das previamente preditas. Considerando ainda essa regi\u00e3o, embora o genoma de SARS-CoV-2 apresente uma identidade de 96% com o genoma de BatCoV RaTG13, a regi\u00e3o RBD se destaca como a regi\u00e3o mais divergente entre os dois genomas. Essa regi\u00e3o tamb\u00e9m se apresenta diferente do SARS-CoV. Por sua vez, essa regi\u00e3o RBD do SARS-CoV-2 apresenta uma alta identidade e conserva\u00e7\u00e3o de amino\u00e1cidos com a regi\u00e3o de coronav\u00edrus isolados de pangolins da Mal\u00e1sia, cujo genoma tamb\u00e9m \u00e9 similar ao SARS-CoV-2. Outros estudos tamb\u00e9m sugerem que os pangolins podem ter sido um hospedeiro intermedi\u00e1rio natural de CoVS do tipo SARS-CoV-2 em algum momento. \u00c9 importante dizer que esses animais s\u00e3o comercializados ilegalmente na China, uma vez que suas escamas s\u00e3o utilizadas na medicina chinesa e sua carne tamb\u00e9m \u00e9 consumida, sendo considerada uma iguaria gastron\u00f4mica. No entanto, at\u00e9 o momento, a falta de dados de outros animais ou de v\u00edrus ancestrais recentes do SARS-CoV-2 fazem com que sejam incertos a origem, o animal hospedeiro desses v\u00edrus e a origem exata de sua transmiss\u00e3o. Outro ponto abordado por eles \u00e9 da regi\u00e3o do dom\u00ednio polib\u00e1sico de clivagem pela furina, uma inser\u00e7\u00e3o de 12 nucleot\u00eddeos detectada em uma regi\u00e3o de jun\u00e7\u00e3o entre as duas subunidades S1 e S2 da prote\u00edna S. Esse s\u00edtio de clivagem pela furina tem papel na infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Esse s\u00edtio \u00e9 flanqueado pela adi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas glicanos O-ligados, que podem estar associados ao escape do sistema imune. Esses s\u00edtios n\u00e3o foram observados nos coronav\u00edrus relacionados ao RaTG13, CoV de pangolins e o SARS-CoV. Esse s\u00edtio de clivagem parece permitir o aumento da infec\u00e7\u00e3o viral de c\u00e9lulas ou aumentar a fus\u00e3o celular de v\u00edrus em c\u00e9lulas humanas. Considerando que muta\u00e7\u00f5es (dele\u00e7\u00f5es ou inser\u00e7\u00f5es) podem ocorrer nessa regi\u00e3o de jun\u00e7\u00e3o S1-S2, essa inser\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m prov\u00e1vel de ter surgido de um processo evolutivo natural, refutando a teoria de manipula\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio. Dessa forma, considerando as quest\u00f5es abordadas em rela\u00e7\u00e3o a similaridade do SARS-CoV-2 e outros genomas de COVs relacionados a outros hospedeiros, a presen\u00e7a da regi\u00e3o RBD e sua similaridade e conserva\u00e7\u00e3o comparada ao CoV de pangolins, a presen\u00e7a do s\u00edtio polib\u00e1sico de clivagem pela furina, sugerem condi\u00e7\u00f5es adaptativas observadas na prote\u00edna S, que permitiriam o v\u00edrus ser transmitido de homem para homem, apontando para um processo de sele\u00e7\u00e3o natural e configurando forte evid\u00eancia do v\u00edrus n\u00e3o ser produto de uma manipula\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio. Al\u00e9m disso, era de se esperar que, no caso de uma manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do v\u00edrus em laborat\u00f3rio, deveria ser observada a utiliza\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus ou sistema de gen\u00e9tica reversa dispon\u00edvel que fosse altamente similar ao novo v\u00edrus, o que n\u00e3o foi observado analisando os dados gen\u00e9ticos de SARS-CoV-2. Outra hip\u00f3tese levantada \u00e9 que tamb\u00e9m pode ter ocorrido um evento de recombina\u00e7\u00e3o entre CoVs relacionados a outros hospedeiros e que SARS-CoV-2 tenha originado de um evento mais complexo. Mas \u00e9 necess\u00e1rio adquirir mais informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e funcionais sobre o v\u00edrus, como, por exemplo, mais sequ\u00eancias de v\u00edrus relacionados de origem animal, entre informa\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas para melhor suportar ou refutar essas hip\u00f3teses<\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> Corroboro com a professora Daniela. Publicamos inclusive, no ano de 2018, um artigo sobre os mecanismos de resist\u00eancia aos antibi\u00f3ticos (falando de bact\u00e9rias), onde tratamos desse assunto e explicamos o que h\u00e1 muito j\u00e1 esse sabe: que os organismos vivos se adaptam naturalmente.<\/p>\n<p><strong>Ainda com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gen\u00e9tica, qual a import\u00e2ncia do mapeamento gen\u00e9tico e das pesquisas nessa \u00e1rea para que a Covid-19 possa ser combatida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela:<\/strong> O conhecimento gen\u00e9tico das prote\u00ednas para o desenvolvimento de tratamentos e vacinas eficazes contra o v\u00edrus. Conhecer o genoma, as prote\u00ednas produzidas pelo v\u00edrus e suas fun\u00e7\u00f5es e como elas est\u00e3o envolvidas no processo de infec\u00e7\u00e3o e replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus s\u00e3o de extrema import\u00e2ncia para o desenvolvimento de diagn\u00f3sticos, tratamentos e preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a viral, permitindo que o controle da doen\u00e7a viral seja realmente eficaz.<\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> O que posso acrescentar \u00e9 o fato de que, com o mapeamento gen\u00e9tico, \u00e9 poss\u00edvel identificar alvos (prote\u00ednas, enzimas) do v\u00edrus, que servem como ponto de partida para o desenho de medicamentos. Esses medicamentos podem ser criados para se ligar a esses alvos e inibir que eles funcionem, fazendo com que o v\u00edrus morra ou parea de funcionar normalmente.<\/p>\n<p><strong>Como se precaver para que, ap\u00f3s ser controlada a pandemia de Covid-19, n\u00e3o ocorra mais alguma muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica nesse ou em outro v\u00edrus e algo semelhante volte a atingir a popula\u00e7\u00e3o mundial no futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela:<\/strong> Como anteriormente dito, as muta\u00e7\u00f5es ocorrem naturalmente e continuar\u00e3o ocorrendo, por ser um processo natural na evolu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem como evitar a ocorr\u00eancia de muta\u00e7\u00f5es. E, como j\u00e1 vimos, v\u00e1rias outras epidemias j\u00e1 ocorreram na hist\u00f3ria da humanidade. A Covid-19 n\u00e3o foi a primeira e nem ser\u00e1 a \u00faltima. Em rela\u00e7\u00e3o ao rumo natural da evolu\u00e7\u00e3o, nada podemos fazer.<\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> N\u00e3o existe precau\u00e7\u00e3o totalmente eficaz. Micro-organismos unicelulares, como os v\u00edrus e bact\u00e9rias, naturalmente sofrem processos de muta\u00e7\u00e3o e desenvolvem mecanismos de resist\u00eancia, que os torna resistentes aos medicamentos e \u00e0s vacinas dispon\u00edveis. \u00c9 s\u00f3 ver o exemplo da gripe. Toda vez que ficamos gripado, \u00e9 um v\u00edrus diferente que nos infectou. Por isso que praticamente todos os anos a vacina da gripe \u00e9 diferente, pois ela foi desenvolvida para imunizar as pessoas contra os v\u00edrus que existem, n\u00e3o contra os que v\u00e3o aparecer. Efetivamente que o uso racional dos medicamentos pode diminuir a press\u00e3o seletiva e diminuir a velocidade com que ocorrem as muta\u00e7\u00f5es, mas elas n\u00e3o param de ocorrer nunca e estaremos sempre vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Com rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da vacina e de f\u00e1rmacos de combate \u00e0 Covid-19, voc\u00eas acreditam que em quanto tempo eles estar\u00e3o dispon\u00edveis para a popula\u00e7\u00e3o em todo o mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela:<\/strong> Desenvolver uma vacina eficaz n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil e r\u00e1pida. Normalmente, levam-se anos (10 a 15 anos) para o desenvolvimento de uma vacina e suas fases de testes para certifica\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a e efic\u00e1cia contra um determinado pat\u00f3geno, antes que ela possa ser devidamente distribu\u00edda e disponibilizada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. A qualidade da vacina \u00e9 essencial para a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, de forma que ela n\u00e3o cause nenhum efeito prejudicial \u00e0 sa\u00fade humana ou animal. Inicialmente, deve-se realizar as pesquisas b\u00e1sicas em laborat\u00f3rio na busca e desenvolvimento de candidatos potenciais \u00e0 vacina (pat\u00f3genos atenuados, prote\u00ednas antig\u00eanicas virais, prote\u00ednas recombinantes, entre outros) que possam ajudar a tratar ou prevenir determinada doen\u00e7a. Depois, estudos utilizando testes em culturas celulares e em animais s\u00e3o necess\u00e1rios para acessar se a vacina candidata \u00e9 realmente segura e avaliar sua imunogenicidade (capacidade de gerar uma resposta imune contra o pat\u00f3geno de interesse), al\u00e9m da sua capacidade de prote\u00e7\u00e3o diante da infec\u00e7\u00e3o do pat\u00f3geno. Esses estudos d\u00e3o uma ideia aos pesquisadores de uma resposta celular que seria esperada em humanos e sugerem qual seria a dose inicial e o m\u00e9todo de administra\u00e7\u00e3o da vacina para a pr\u00f3xima fase de testes. Muitas vacinas candidatas n\u00e3o passam dessa fase devido \u00e0 sua incapacidade de produzir uma resposta imune desejada. No entanto, uma vez alcan\u00e7ada a resposta imune desejada, a vacina candidata deve passar por uma aprova\u00e7\u00e3o. Um patrocinador, geralmente uma empresa privada, envia uma solicita\u00e7\u00e3o para o uso de uma vacina em investiga\u00e7\u00e3o aos \u00f3rg\u00e3os competente. O patrocinador deve descrever os processos de fabrica\u00e7\u00e3o e teste, resumir os relat\u00f3rios dos resultados em laborat\u00f3rio e descrever o estudo proposto. Um conselho de revis\u00e3o institucional, representando uma institui\u00e7\u00e3o onde o ensaio cl\u00ednico ser\u00e1 realizado, deve aprovar o protocolo cl\u00ednico. Uma vez aprovado o protocolo, a vacina passa por tr\u00eas fases de testes em humanos e, constatando-se a efici\u00eancia da vacina em prevenir a doen\u00e7a, prevenir a infec\u00e7\u00e3o e levar a produ\u00e7\u00e3o de uma resposta imune eficiente contra o pat\u00f3geno, deve-se obter a aprova\u00e7\u00e3o e a licen\u00e7a para produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o da vacina. Mesmo depois da vacina ser aprovada, ainda deve ser realizada uma fase de triagem e acompanhamento da seguran\u00e7a e efic\u00e1cia da vacina. Alguns grupos j\u00e1 anunciaram que apresentaram resultados positivos in vitro e in vivo de vacinas candidatas contra o novo SARS-CoV-2 e que estavam iniciando a primeira fase do teste em humanos. As primeiras not\u00edcias d\u00e3o uma previs\u00e3o de que entre seis e 18 meses poderemos ter uma vacina para a Covid-19. \u00c9 aguardar pra ver se todas essas etapas ser\u00e3o cumpridas com rigor e sucesso em humanos para que, em breve, toda a popula\u00e7\u00e3o mundial possa usufruir de uma vacina contra a Covid-19.<\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> Sendo otimista e imaginando que todas as fases de desenvolvimento deem certo, no sentido de que n\u00e3o apare\u00e7am efeitos colaterais graves e toxicidade, consigo imaginar que para 2021 j\u00e1 exista pelo menos uma vacina dispon\u00edvel para essa cepa circulante de Covid-19 e a popula\u00e7\u00e3o possa come\u00e7ar a ser vacinada. Quanto a um novo medicamento, esse \u00e9 um caminho muito mais longo. N\u00e3o existe um medicamento para a Covid-19. As possibilidades s\u00e3o duas: desenvolvimento de uma droga espec\u00edfica para Covid-19, e esse caminho levar\u00e1 no m\u00ednimo de 6 a 10 anos de pesquisa; ou o reposicionamento de medicamentos, que significa utilizar um medicamento j\u00e1 dispon\u00edvel para uma determinada doen\u00e7a e \u201cdescobrir\u201d que ele tamb\u00e9m serve para uma doen\u00e7a distinta e come\u00e7ar a us\u00e1-lo para isso. Dando um exemplo bem corriqueiro: originalmente, o AAS (\u00e1cido acetil salic\u00edlico) foi desenvolvido e utilizado por muitos anos como analg\u00e9sico, anti-inflamat\u00f3rio e antit\u00e9rmico. Anos depois, se descobriu que ele tamb\u00e9m ajudava a prevenir trombose e infartos. A partir da\u00ed, ele come\u00e7ou a ser usado para doen\u00e7as cardiovasculares. Esse processo \u00e9 muito mais r\u00e1pido e curto, porque estamos falando de medicamentos que j\u00e1 foram exaustivamente testados e usados em seres humanos, ou seja, j\u00e1 sabemos como ele age e quais s\u00e3o seus efeitos adversos. Ent\u00e3o, eles podem estar dispon\u00edveis em 1 ou 2 anos. Por\u00e9m, uma vez existindo uma vacina eficaz, a pesquisa por novas drogas acaba morrendo, pois as pessoas n\u00e3o mais ficar\u00e3o infectadas ou ficar\u00e3o um n\u00famero muito reduzido, o que n\u00e3o justifica o tempo e dinheiro gasto nas etapas da pesquisa. Veja o exemplo de outras doen\u00e7as causadas por v\u00edrus, como caxumba, sarampo, rub\u00e9ola, febre amarela, resfriado. Para todas essas existem vacinas e para nenhuma delas existem medicamentos para matar os v\u00edrus. Se por acaso uma pessoa ficar doente com uma dessas doen\u00e7as, os medicamentos que tomam s\u00e3o apenas para aliviar alguns sintomas (baixar febre, diminuir a inflama\u00e7\u00e3o, etc), mas nenhum deles mata o agente infeccioso (v\u00edrus).<\/p>\n<p><strong>Podemos afirmar que a hidroxicloroquina, medicamento usado para combater a mal\u00e1ria, l\u00fapus entre outras doen\u00e7as, pode ser utilizado de forma segura contra o novo coronav\u00edrus?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> Como j\u00e1 comentado anteriormente, n\u00e3o existe nenhum medicamento para a Covid-19 e, pessoalmente, prevendo que uma vacina pode ser produzida muito mais rapidamente que um novo medicamento, avalio que nunca teremos um medicamento espec\u00edfico para Covid-19. O caso da cloroquina, ou hidroxicloroquina, que s\u00e3o medicamentos antimal\u00e1ricos, enquadram-se exatamente na tentativa de reposicionamento de medicamentos comentada anteriormente. Por\u00e9m, s\u00e3o medicamentos com efeitos colaterais graves e que, se usados de maneira inapropriada, s\u00e3o mais letais do que curativos. A equipe m\u00e9dica necessita avaliar muito o custo\/beneficio para fazer o uso dessa medica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, v\u00e1rios estudos j\u00e1 demonstraram que a taxa de cura desses dois f\u00e1rmacos \u00e9 muito baixa em pacientes acometidos com Covid-19. Portanto, definitivamente, at\u00e9 a presente data, n\u00e3o existem argumento que justifique o uso de cloroquina para tratar a Covide-19. Acredito que teremos mais chances de sucesso no reposicionamento de drogas, com alguns dos medicamentos antivirais j\u00e1 dispon\u00edveis e utilizados em terapias para o HIV ou hepatites. Muitos desses f\u00e1rmacos est\u00e3o sendo testados contra a Covid-19 e, uma vez que eles agem inibindo o crescimento de v\u00edrus, temos uma chance maior de sucesso frente a Covid-19.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma perspectiva de per\u00edodo para que o v\u00edrus seja controlado e haja sua erradica\u00e7\u00e3o? Isso depende de que?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniela:<\/strong> Eu n\u00e3o consigo responder em rela\u00e7\u00e3o a previs\u00e3o exata de quanto tempo poder\u00e1 levar esse per\u00edodo de controle da epidemia. O que posso dizer \u00e9 que as medidas de conten\u00e7\u00e3o da pandemia j\u00e1 est\u00e3o em pr\u00e1tica atrav\u00e9s do isolamento horizontal e vertical, dependendo do pa\u00eds, com o intuito de restringir a transmiss\u00e3o interpessoal do v\u00edrus; da constru\u00e7\u00e3o dos hospitais de campanha; desenvolvimento de testes diagn\u00f3sticos; entre outros. A disponibilidade de testes r\u00e1pidos para diagn\u00f3stico e rastreamento da Covid-19 s\u00e3o importantes para o controle da pandemia. Um esfor\u00e7o entre autoridades, profissionais da sa\u00fade e pesquisadores \u00e9 fundamental para uma melhor compreens\u00e3o do v\u00edrus e da doen\u00e7a, para que medidas de tratamento e vacinas possam ser desenvolvidas. Para isso \u00e9 importante conhecer a biologia molecular do v\u00edrus. A descoberta da origem de transmiss\u00e3o do v\u00edrus para humanos tamb\u00e9m contribuiria para a interrup\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o adicional do v\u00edrus. \u00c9 preciso aprender com essa pandemia e expandir as pesquisas cient\u00edficas, sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas para que possamos antecipar a emerg\u00eancia de outras futuras epidemias e para estarmos preparados para rapidamente enfrent\u00e1-las e cont\u00ea-las, sem maiores danos a popula\u00e7\u00e3o e ao estado.<\/p>\n<p><strong>Francisco Jaime:<\/strong> Infelizmente, o v\u00edrus n\u00e3o ser\u00e1 controlado. Ele ficar\u00e1 circulante para sempre, assim como acontece com todos os demais v\u00edrus existentes (sarampo, febre amarela, caxumba, etc). Algumas pessoas que tiveram contato com o v\u00edrus, que sobreviveram e\/ou n\u00e3o tiveram sintomas (assintom\u00e1ticos) produzir\u00e3o anticorpos (defesas do organismo) e ficar\u00e3o imunes. Outras pessoas ser\u00e3o vacinadas assim que existir uma vacina e tamb\u00e9m ficar\u00e3o imunes. E a parcela da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tomar vacina continuar\u00e1 sendo afetada, ou continuar\u00e1 sendo um reservat\u00f3rio da doen\u00e7a para infectar outras pessoas n\u00e3o imunes. Isso acontece com todas as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s o surgimento da Covid-19, doen\u00e7a provocada por um novo tipo de coronav\u00edrus, que chegou ao Brasil trazendo bastante preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0s autoridades de Sa\u00fade, a sociedade tem vivenciado um per\u00edodo de incertezas e prolifera\u00e7\u00e3o de fake news. 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