{"id":1162,"date":"2013-11-07T15:24:40","date_gmt":"2013-11-07T15:24:40","guid":{"rendered":"\/ccbsa\/?p=1162"},"modified":"2013-11-07T15:26:10","modified_gmt":"2013-11-07T15:26:10","slug":"exemplo-de-superacao-bibliotecaria-do-campus-v-mostra-como-ultrapassou-os-proprios-limites-depois-de-ficar-cega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/centros.uepb.edu.br\/ccbsa\/exemplo-de-superacao-bibliotecaria-do-campus-v-mostra-como-ultrapassou-os-proprios-limites-depois-de-ficar-cega\/","title":{"rendered":"Garra e supera\u00e7\u00e3o: Bibliotec\u00e1ria do CCBSA ultrapassou os pr\u00f3prios limites depois de ficar cega"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/centros.ascom.uepb.edu.br\/ccbsa\/files\/2013\/11\/DSC04229ed.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-1163 img-responsive\" alt=\"DSC04229ed\" src=\"http:\/\/centros.ascom.uepb.edu.br\/ccbsa\/files\/2013\/11\/DSC04229ed-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>\u00a0\u201cDizem que a vida \u00e9 para quem sabe viver, mas ningu\u00e9m nasce pronto. A vida \u00e9 para quem \u00e9 corajoso o suficiente para se arriscar e humilde o bastante para aprender\u201d, essa frase de Clarice Lispector poderia ilustrar a trajet\u00f3ria da bibliotec\u00e1ria da Universidade Estadual da Para\u00edba, Ana L\u00facia Leite, desde que um incidente inexplic\u00e1vel a fez perder a vis\u00e3o aos 20 anos de idade e mudou o rumo de sua vida, fazendo surgir a coragem, para superar as barreiras que surgiram, e humildade, para reaprender a viver com as limita\u00e7\u00f5es impostas pela defici\u00eancia visual.<\/p>\n<p>A paraibana, natural do munic\u00edpio de Aguiar, localizada na regi\u00e3o do Vale do Pianc\u00f3, foi dormir enxergando e acordou cega, ap\u00f3s um descolamento de retina que nenhum dos m\u00e9dicos consultados na \u00e9poca conseguiu explicar a causa. \u201cEu entrei numa depress\u00e3o profunda, n\u00e3o via mais sentido na vida. Essa fase eu julgo como a mais dif\u00edcil da minha vida, eu tive que reaprender tudo novamente, foi muito dif\u00edcil\u201d, relembra Ana L\u00facia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a perda da vis\u00e3o a jovem, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o ia al\u00e9m dos limites da cidadezinha do interior em que vivia, partiu com toda a fam\u00edlia para capital paraibana com a perspectiva de encontrar apoio e reaprender a viver com as novas limita\u00e7\u00f5es. \u201cNa cidade onde mor\u00e1vamos a escola s\u00f3 oferecia ensino at\u00e9 a 8\u00aa s\u00e9rie. Quando termin\u00e1vamos era preciso ir para uma cidade maior para continuar estudando. Como eu n\u00e3o tinha coragem de partir sem minha m\u00e3e eu j\u00e1 tinha desistido de seguir os estudos. Mas, quando eu perdi a vis\u00e3o, minha m\u00e3e, professora aposentada, resolveu procurar uma forma de me apoiar para que eu pudesse continuar vivendo e nos mudamos pra Jo\u00e3o Pessoa. Essa mudan\u00e7a foi boa para meus oito irm\u00e3os, que tiveram uma oportunidade de estudar e crescer na vida. Por interm\u00e9dio de uma vizinha ficamos sabendo do trabalho do Instituto dos Cegos e l\u00e1 eu aprendi a viver com essa minha limita\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o me aceitava cega, e s\u00f3 atrav\u00e9s do Instituto e da FUNAD (Funda\u00e7\u00e3o de Apoio ao Deficiente), eu passei por uma reabilita\u00e7\u00e3o, aprendi o sistema braile em uma semana e voltei a ler novamente, aprendi a usar as tecnologias e iniciei uma nova trajet\u00f3ria em minha vida\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Ana L\u00facia destaca que, ap\u00f3s a perda da vis\u00e3o passou por uma ressignifica\u00e7\u00e3o da vida e dos valores que tinha, aprimorou os outros sentidos e procurou superar as dificuldades buscando o lado bom da vida que ela poderia desfrutar. \u201c\u00c9 uma diferen\u00e7a imensa! Al\u00e9m da quest\u00e3o de limita\u00e7\u00e3o, tem o colorido da vida que a gente n\u00e3o v\u00ea, mas, em compensa\u00e7\u00e3o, a gente come\u00e7a a perceber coisas que quando enxergamos n\u00e3o percebemos. Eu amo o mar, eu me sinto bem quando eu caminho, mergulho no mar, e tem coisas que eu sinto hoje que na \u00e9poca que eu via eu n\u00e3o aproveitava. Eu s\u00f3 me prendia ao visual, hoje eu paro pra sentir a brisa, o cheiro das coisas, a gente desenvolve os outros sentidos. Al\u00e9m disso, antes eu era impaciente, eu n\u00e3o tinha tempo de parar, ajudar as pessoas, s\u00f3 queria curtir a vida. Depois que eu ceguei eu aprendi a ter mais paci\u00eancia, a escutar mais as pessoas e eu me sinto mais \u00fatil hoje em dia\u201d, avalia Ana L\u00facia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das mudan\u00e7as de perspectiva diante da vida e limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, a bibliotec\u00e1ria lembra que sofreu com o afastamento de amigos, namorado, que n\u00e3o sabiam como conviver com a nova realidade. \u201cA maioria dos amigos se afasta. Quando te v\u00ea ficam com pena, chorando, eram companheiros de lamenta\u00e7\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No instituto dos cegos Ana conheceu o seu atual marido, cego desde os 6 meses de idade, por quem sentiu o que chama de \u201camor \u00e0 primeira voz\u201d. Casou e teve um filho, hoje com 14 anos de idade. Mas, o caminho de supera\u00e7\u00e3o de Ana L\u00facia n\u00e3o se restringiu \u00e0 vida pessoal. Ap\u00f3s descobrir que era poss\u00edvel estudar e trabalhar mesmo com as limita\u00e7\u00f5es a jovem deu prosseguimento \u00e0 carreira acad\u00eamica e conquistou seu espa\u00e7o profissional no mercado.<\/p>\n<p>\u201cFiz um teste no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o da Para\u00edba, fui aprovada e terminei o pedag\u00f3gico. Prestei vestibular na Universidade Federal, para o curso de Biblioteconomia. Escolhi esse curso justamente porque nessa \u00e9poca, em 1994, tinha poucos livros espec\u00edficos para o deficiente visual, n\u00e3o existiam bibliotecas em braile, acervos acess\u00edveis. J\u00e1 na faculdade eu encontrei professores muito bons, com interesse de passar conte\u00fado, que acreditavam no meu potencial, mas, eu tamb\u00e9m enfrentei muitas barreiras, tanto arquitet\u00f4nicas como atitudinais. Alguns professores n\u00e3o acreditavam que, por eu ser cega, eu poderia realizar algumas tarefas ou ir mais longe. Eu imaginava que na academia iria encontrar pessoas com a cabe\u00e7a mais aberta e que soubessem lidar com as diferen\u00e7as, o que foi um engano, uma decep\u00e7\u00e3o grande. Outra decep\u00e7\u00e3o foi em rela\u00e7\u00e3o ao acervo. Eu achava que na universidade \u00eda ter um acesso melhor \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tinha, o setor braile era limitado, n\u00e3o existia um \u00fanico livro na minha \u00e1rea que fosse adaptado ao meu acesso\u201d, lembrou.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades Ana L\u00facia conseguiu concluir a gradua\u00e7\u00e3o em Biblioteconomia, partindo logo ap\u00f3s a defesa da monografia para a maternidade, onde nasceu seu filho Gabriel, o que ela chama de \u201cmelhor diploma\u201d que poderia conseguir.\u00a0 Tamb\u00e9m cursou a Especializa\u00e7\u00e3o em bibliotecas escolares e acessibilidade pela Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na qual desenvolveu um Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso sobre Tecnologias Acess\u00edveis ao deficiente visual; e especializa\u00e7\u00e3o em Psicopedagogia pelas Faculdades Integradas de Patos (FIP).<\/p>\n<p>No campo profissional atuou com Telemarketing, em Bibliotecas de Institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Estado, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, buscando organizar os acervos e torn\u00e1-los acess\u00edveis. Foi professora de Inform\u00e1tica na Funda\u00e7\u00e3o Centro Integrado de Apoio ao Portador de Defici\u00eancia (FUNAD) de 1996 a 2007. Em 2007, prestou concursos para atuar como docente nas prefeituras de Jo\u00e3o Pessoa e Bayeux, e na UEPB. Foi aprovada em todas as sele\u00e7\u00f5es, mas, optou pela carreira de t\u00e9cnica administrativa da UEPB, onde est\u00e1 desde 2008. Na institui\u00e7\u00e3o realiza um trabalho com a recupera\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o acess\u00edvel da informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do uso do servi\u00e7o Braille e das ferramentas tecnol\u00f3gicas para o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente, Ana L\u00facia concilia o trabalho na UEPB com as atividades no Instituto dos Cegos da Para\u00edba, onde est\u00e1 desde 1997 e exerce a fun\u00e7\u00e3o de vice-presidente. Tanto na UEPB, com a busca de formas de tornar o acervo da biblioteca acess\u00edvel, como no Instituto dos Cegos, auxiliando pessoas cegas na reabilita\u00e7\u00e3o, Ana L\u00facia segue lutando por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para esse grupo que, de acordo com dados do Censo do IBGE de 2010, abrange 18,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Uma das bandeiras defendidas pela bibliotec\u00e1ria \u00e9 o fornecimento de livros em formato digital, algo que \u00e9 permitido para uso exclusivo de pessoas com defici\u00eancia visual e facilitaria os estudos e o acesso ao acervo por parte desse p\u00fablico. \u201c\u00c9 obriga\u00e7\u00e3o de todas as bibliotecas serem acess\u00edveis a todos, e eu tenho desenvolvido alguns projetos e buscado formas de di\u00e1logo com os gestores no intuito de viabilizar esse objetivo\u201d, destaca.<\/p>\n<p>A bibliotec\u00e1ria respons\u00e1vel pela Biblioteca do Campus V, em que Ana L\u00facia trabalha, Liliane Braga, enfatiza o empenho e dedica\u00e7\u00e3o da servidora que \u00e9 querida pelos colegas e se tornou um exemplo para todos. \u201cEla \u00e9 muito batalhadora, est\u00e1 sempre de bom humor, e nos fez perceber o quanto precis\u00e1vamos melhorar nosso espa\u00e7o e o nosso acervo para pessoas com defici\u00eancia. Hoje todos n\u00f3s estamos junto com ela nessa luta por acessibilidade\u201d, afirmou. A auxiliar de biblioteca e amiga, Gizele Martins, acrescenta que, \u201cmesmo diante da falta de sensibilidade de algumas pessoas ao lidar com a colega, Ana nunca se deixou abalar e seguiu encorajando a todos a superar os problemas\u201d.<\/p>\n<p>Ana L\u00facia se emociona ao falar do apoio que recebe da equipe de colegas de trabalho, que s\u00e3o o alicerce para que ela consiga crescer cada dia mais. \u201cEsse grupo \u00e9 fant\u00e1stico! Choram comigo, lutam comigo, me auxiliam no que preciso, sem eles tudo seria mais complicado\u201d, analisa. A bibliotec\u00e1ria destaca alguns planos para a vida profissional, acad\u00eamica e pessoal, que incluem o principal: ser feliz. \u201cOs obst\u00e1culos sempre v\u00e3o existir, cabe a gente buscar for\u00e7as pra continuar. Eu acredito que se alguma coisa acontece com a gente n\u00e3o \u00e9 por acaso. Portanto,\u00a0 precisamos ter for\u00e7a de vontade, amigos verdadeiros e assim podemos crescer, ser felizes e fazer feliz quem est\u00e1 perto da gente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u201cDizem que a vida \u00e9 para quem sabe viver, mas ningu\u00e9m nasce pronto. 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